Um belo colégio para crianças em um cenário de campo inglês. Uma paisagem bonita em que logo fica claro que o colégio é um orfanato e nele alguma coisa não está muito certa. Não é a rigidez típica das escolas inglesas e nem a diretora durona. Não , nada disso as crianças ali que cantam e enaltecem a Instituição são futuras doadoras de orgãos e sabem disso bem cedo. Um filme avassalador como o livro de Kazuo Ishiguro  que dá origem ao filme. Uma ficção científica sem cara de futuro. Um futuro que é inexorável e inadiável . Para todos. Esse é o tema levantado por Kazuo Ishiguro o destino a ser cumprido.

A história se passa nos anos de 1950 época em que a medicina avança e faz com que se chegue a 1994 com a expectativa de vida de 100 anos . Isto as custas de doares que vem – como diz uma das personagens – da sarjeta. A sobrevivência de uns depende da morte abreviada de outros.  Quem nasceu no fundo poço permanece lá mesmo mantendo a sobrevida de quem está do outro lado. Várias escolas são mantidas com este objetivo . Isso parece ocorrer mundialmente.

Curioso mesmo é o fato que gera impaciencia na audiência que assite o filme . No escuro da sala de cinema ouvi várias vezes  – “porque esses meninos não fogem ? Eles não fazem nada ? Porque não vão para outro lugar ?”

A resposta aparece em uma das falas em que os personagens – um casal-  num ato de desespero e amor resolve tentar um adiamento de sua saga – o início do periodo dos transplantes para a moça e a terceira e provavelmente derradeira cirurgia para o rapaz. A descoberta de que não há e nem nunca houve adiamentos é decisiva.

Como adiar nossa história a ser cumprida ? Será que somos como estes personagens que nascem e crescem com um destino a ser cumprido. Eles crescem, saem da escola e vão morar entre amigos ,aprendem a dirigir , saem de casa e andam na rua , enamoram-se uns dos outros , fazem sexo  e em algum momento recebem uma carta e começam a doar orgãos e morrem. Alguns acreditam ser bons doadores. Outros percebem que sua vida é sem sentido. Alguns são assistentes e por um tempo ficam ao lado daqueles que estão nos hospitais ou em centros de recuperação . Depois também passam a condição de doadores.

Não dá para transformar as coisas . Ninguém luta contra esta previsibilidade toda. E nem mesmo uma bela história de amor juvenil transforma o destino dos personagens. Ou será que isso muda tudo mesmo sabendo que o fim é inevitável ?

O elenco de crianças me parece bem melhor do que o dos jovens na segunda fase.

O trio de amigos  que vive as agruras da descoberta da vida , do amor e da morte  é representado por Carey Mulligan, Andrew Garfield, que parecem estar em seriados de televisão enquanto anoréxica Keira Knightley definitivamente está longe de ser uma atriz que aprecio. Me causa mesmo espanto como alguém com tantos vícios para falar e colocar a voz pode chegar as telonas. De toda maneira o questionamento de nossa existência com conteúdo tão dramático e imagens tão delicadas , belas em alguns momentos me fazem gostar muito do filme.

Acredito que valha prestar atenção no figurino que transita com elegância e discrição britânica entre a sobriedade e a displicência, entre a falta e o suficiente, entre o nada e o que realmente importa para compor os personagens.

Não me abandone jamais – independentemente do final a gente vai até ele juntos ! Nisso dá para acreditar!

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